O Sinttel-Rio entrevistou o escritor e dirigente sindical Roberto Ponciano sobre a intimação que recebeu no dia 30 de março de 2017, por um suposto crime de opinião. Ato em solidariedade é marcado para esta terça-feira (11), às 14h, no Boulevard Olímpico, no Centro do Rio
Roberto Ponciano é o terceiro sindicalista a ser investigado a mando do juiz Sergio Moro por crime de opinião. Ele foi intimado a prestar depoimento nesta terça-feira (11), na sede da Polícia Federal no Rio de Janeiro, depois de fazer críticas à forma como o juiz conduz as investigações da operação Lava Jato. Ponciano vem manifestando seus pontos de vista através de publicações em suas redes sociais e de um texto publicado no site de notícias O Cafezinho, no dia 21 de março de 2016. Eduardo Guimarães e Emanuel Cancella são outros dois alvos de Moro, perseguidos por pensar e opinar. Um ato em solidariedade está marcado para esta terça (11), às 14 horas, no Boulevard Olímpico, no Centro do Rio de Janeiro.
Sinttel-Rio: Do que o juiz Sergio Moro te acusa nessa intimação?
Roberto Ponciano: O Moro não me acusa de nada. Temos que esclarecer que é um depoimento na Polícia Federal a partir de uma portaria de abril do ano passado, sobre supostos crimes contra ele. Mas ele mesmo é juiz, não pode me acusar de nada. A Polícia Federal manda uma intimação em aberto (o que denomino de lei penal em branco, típica de regimes de exceção), na qual posso ser investigado desde calúnia e difamação, até por ameaça à vida do Moro. E não tivemos acesso a nada do que me acusam.
Qual é o ponto crucial da sua crítica em relação ao juiz?
– Creio que o que o ofendeu foi eu dizer que ele é um juiz sem brilho, apenas um peão do golpe, que depois de ser usado, será jogado fora. Isto deve ter mexido com os brilhos dele, afinal, fiz uma crítica filosófica, usando a tese do mal radical de Hannah Arendt e o comparando a Eichman. Mostrar que ele só pode fazer o que faz porque é um burocrata sem brilho que executa ordens superiores, com certeza mexeu com os brilhos dele. Moro é só um burocrata que ajudou no golpe. Quando terminar o serviço sujo, não servirá para mais nada, será jogado fora, assim como Joaquim Barbosa.
O que essa intimação representa para você, o terceiro sindicalista a ser perseguido por expressar opinião crítica à conduta de Sergio Moro?
– A intimação significa um cerceamento à liberdade de expressão. Uma tentativa de intimidar aqueles que se opõe aos métodos de Moro e da Lava Jato. Na prática, significa brechas para a criação do Estado de Exceção, porque ao fim e ao cabo, estou sendo intimado por um suposto “crime de opinião”.
Você acha que há uma ameaça aos dirigentes sindicais?
– Não creio que só aos dirigentes sindicais. É uma ameaça ao Estado Democrático de direito. Na verdade, este tipo de conduta por parte de um magistrado coloca em risco todo aquele que criticar um adversário político. É o péssimo uso do Estado para fins persecutórios. Um delegado pode criar uma portaria para investigar ilimitadamente qualquer um que ele considere uma “ameaça ao juiz Sergio Moro”. Parece o DOI-CODI cassando os “inimigos internos”.
Para além da liberdade de expressão, o que isso significa politicamente?
– Significa que, para um golpe impopular dar certo, é necessário reprimir as vozes divergentes, reprimir o pensamento. Reprimir quem diz que Moro é partidário e golpista e que a Lava Jato está destruindo a cadeia produtiva do Brasil. Moro não está isolado. É parte, um peão do golpe.
Você já foi ameaçado ou sofreu outro tipo de coerção?
– Não, nunca fui ameaçado pelo Moro. Só alguns coxinhas sem noção me ameaçaram, até de morte, mas nem levei a sério. Mas o Estado reprimir quem pensa é uma forma de ameaça também.
Como você definiria a atual situação política do Brasil?
– Estamos no meio do caos, com o golpe avançando. É um golpe para destruir um projeto de nação. Você consegue imaginar o Brasil sem previdência, sem CLT, sem direitos trabalhistas, com o negociado valendo acima do legislado, sem os sindicatos? Pois é isto que eles querem. Um país de escravos.
*Roberto Ponciano é mestre em Filosofia/Ética, em Letras Neolatinas e especialista em Economia do Trabalho, além de diretor da Central Única dos Trabalhadores do Rio de Janeiro.













